Atualizado no dia 26 de Junho de 2026 por Adrián Escobar Morales
Uma das primeiras perguntas que qualquer treinador faz ao começar a usar o VBT é esta: Preciso construir um perfil carga-velocidade individualizado para cada atleta ou posso usar valores genéricos da literatura? A resposta intuitiva é que o perfil individualizado deveria ser mais preciso – é específico do atleta, não uma média de uma população. Mas as evidências científicas mais recentes qualificam bastante essa ideia.
Fazer isso corretamente muda a forma como você gasta seu tempo treinando e como interpreta as estimativas de 1RM obtidas do codificador.
Índice
- 1 Qual é o perfil de velocidade de carga e para que serve?
- 2 A lógica do perfil individualizado
- 3 O que diz a meta-análise mais abrangente até hoje
- 4 Como isso é possível? A explicação
- 5 Então, para que serve o perfil individualizado?
- 6 Recomendação prática: uma abordagem faseada
- 7 Um detalhe que a maioria esquece: a intenção da velocidade
- 8 Conclusão
- 9 Literatura
Qual é o perfil de velocidade de carga e para que serve?
A relação entre carga e velocidade nos exercícios de força é linear e inversa: quanto maior a carga, menor a velocidade de execução. Esta relação é estável, reprodutível e específica do exercício. A partir dele, o perfil de velocidade de carga permite estimar o 1RM diário sem precisar chegar à falha — basta medir a velocidade com duas ou mais cargas submáximas e extrapolar a curva para a velocidade técnica mínima (o limite de velocidade no qual o 1RM seria elevado).
Isto é extremamente útil na prática: você pode saber a estimativa de 1RM do seu atleta em cada sessão, sem fadiga adicional, integrando-a no próprio aquecimento. Isso é o que ele faz ADR Encoder automaticamente em cada sessão com o aplicativo ADR System.
O debate está em qual perfil usar Para fazer essa estimativa:
- Perfil genérico: valores médios da literatura científica que relacionam velocidade e percentual de 1RM para um exercício específico. Por exemplo, no agachamento, levantar a ~1,0 m/s equivale a aproximadamente 60% de 1RM segundo os dados de González-Badillo e Sánchez-Medina.
- Perfil individualizado: curva construída especificamente para aquele atleta através de um teste incremental, utilizando seus próprios dados de velocidade contra cargas conhecidas.
A lógica do perfil individualizado
A variabilidade interindividual na relação carga-velocidade é real. Nem todos os atletas se movem na mesma velocidade e na mesma porcentagem de 1RM – um levantador de peso muito experiente pode levantar seu agachamento de 1RM a 0,15 m/s, enquanto um atleta mais explosivo pode fazê-lo a 0,30 m/s. Se você usar o mesmo limite mínimo de velocidade para ambos, um dos dois terá um erro sistemático na estimativa de 1RM.
Por isso a lógica do perfil individualizado parece sólida: se você construir a curva com os dados reais do atleta, a estimativa deverá ser mais precisa. Esta foi durante anos a recomendação dominante na literatura VBT.
O que diz a meta-análise mais abrangente até hoje
Em 2023, Greig et al. publicado em Medicina Desportiva a meta-análise mais ambiciosa realizada até agora sobre a validade preditiva de perfis carga-velocidade para estimar 1RM. Eles analisaram 137 modelos de 26 estudos, com dados de 434 participantes nas modalidades agachamento, supino, levantamento terra, clean e snatch.
Suas descobertas são mais matizadas do que o esperado:
- Os perfis de velocidade de carga têm um validade preditiva moderada estimar 1RM, com erro padrão de estimativa de 9,8% (IC 95%: 7,4-12,2%). Em termos práticos, se o 1RM real for de 100 kg, a estimativa pode estar errada entre 7 e 12 kg em média.
- Os perfis tendem a superestimar 1RM sistematicamente — em média 3,7% acima do valor real (cerca de 4,5 kg em termos absolutos).
- E aqui está a descoberta mais surpreendente: Usar um limite de velocidade individualizado não produz estimativas significativamente mais precisas do que usar um limite genérico. A diferença entre as duas abordagens não foi estatisticamente significativa (β = -0,4%, IC 95%: -1,9% a 1,0%).
Em outras palavras: construir um perfil carga-velocidade completamente individualizado para cada atleta não melhora sensivelmente a precisão da estimativa de 1RM em comparação com o uso de valores genéricos da literatura.
Como isso é possível? A explicação
Que os perfis individualizados não sejam claramente superiores pode parecer contra-intuitivo, mas tem uma explicação lógica quando analisado detalhadamente.
O perfil carga-velocidade de um atleta não é estável ao longo do tempo. Ela muda com o nível de fadiga, o estado de ativação do dia, as adaptações ao treinamento e as mudanças na composição das fibras musculares. Um perfil construído hoje pode não ser representativo do que acontecerá daqui a duas semanas. Isto reduz a vantagem teórica da individualização – o perfil “individualizado” também tem um erro inerente porque não é estático.
Além disso, o maior problema na estimativa de 1RM não está na inclinação da curva, mas na limite mínimo de velocidade (MVT) — a velocidade com que o 1RM é levantado. Este valor varia muito entre indivíduos e é difícil de medir com precisão sem atingir uma falha real. E, paradoxalmente, a variabilidade no MVT afeta de forma semelhante tanto os perfis individualizados quanto os genéricos, o que equaliza seu erro final.
Então, para que serve o perfil individualizado?
A conclusão da meta-análise não é que o perfil individualizado seja inútil – é que a sua vantagem para prever 1RM absoluto É menor do que o esperado. Mas o perfil individualizado ainda é valioso por outros motivos:
- Monitoramento longitudinal: embora o perfil apresente erro em termos absolutos, as mudanças na curva ao longo de um ciclo de treinamento refletem adaptações reais. Se a velocidade com uma carga fixa aumentar, o atleta melhorou – independentemente de quão precisa seja a estimativa absoluta de 1RM.
- Detecção de variações diárias: o perfil individualizado é mais sensível às flutuações entre sessões causadas pela fadiga acumulada, pela qualidade do sono ou pelo estado de recuperação. Isto o torna útil para autorregulação de cargas, embora o 1RM estimado tenha margem de erro.
- Atletas com características extremas: levantadores de peso avançados, levantadores olímpicos ou atletas com MVT muito distantes dos valores normativos se beneficiam mais do próprio perfil, pois o erro do perfil genérico nesses casos pode ser maior que a média.
Recomendação prática: uma abordagem faseada
A evidência sugere que não existe uma resposta única. A abordagem mais eficiente depende do contexto:
| Situação | Abordagem recomendada | Porque |
|---|---|---|
| Comece com VBT, atleta sem dados anteriores | Perfil genérico | Preciso o suficiente para começar, sem a necessidade de um teste inicial |
| Atleta com experiência média, monitoramento objetivo | Perfil individualizado básico (2-3 cargas) | Melhora a sensibilidade às mudanças diárias sem grandes custos de tempo |
| Atleta avançado ou recursos extremos | Perfil individualizado completo | A variabilidade individual é suficientemente elevada para justificar o investimento |
| Grandes grupos em esportes coletivos | Perfil genérico ou dois pontos | Viabilidade logística — o erro é aceitável e o tempo é limitado |
| Monitoramento de desempenho de longo prazo | Perfil individualizado atualizado a cada ciclo | Mudanças na curva refletem adaptações reais mesmo que o 1RM tenha erro |
Um detalhe que a maioria esquece: a intenção da velocidade
Um dos fatores que mais afeta a precisão do perfil, seja ele genérico ou individualizado, é a intenção de velocidade máxima em cada repetição. Diversos estudos indicam que quando o atleta não aplica a máxima intenção possível em cada repetição submáxima — algo muito comum na prática quando a carga é “confortável” — a velocidade registrada é inferior à real e a estimativa de 1RM fica ainda mais inflada.
É por isso que a instrução do atleta é tão importante quanto o tipo de perfil que você utiliza: cada repetição deve ser executada com intenção de velocidade máxima, mesmo que a carga seja leve. É isso que garante que a velocidade registrada seja o verdadeiro teto daquele atleta para aquela carga, e não uma versão reduzida por falta de motivação ou esforço.
Conclusão
A pesquisa mais recente mostra que perfis individualizados de carga-velocidade não prevêem 1RM de forma significativamente mais precisa do que perfis genéricos. Ambos têm uma margem de erro moderada – cerca de 10% – e ambos tendem a superestimar o verdadeiro 1RM.
Isso não significa que individualizar seja inútil. Isso significa que O valor do perfil individualizado não está tanto na previsão de 1RM absoluto, mas na detecção de mudanças relativas ao longo do tempo e permitindo uma autorregulação mais sensível das cargas sessão por sessão. Para isso é mais valioso que o perfil genérico.
Na prática, o mais inteligente é começar pelos valores genéricos, construir o perfil individual com os dados reais que o codificador acumula em cada sessão e usar esse perfil para monitorar tendências — não para obter um 1RM “exato” que na realidade nunca poderá ser completamente preciso sem um teste máximo real.
Literatura
- Greig, L., Aspe, R.R., Hall, A., Comfort, P., Cooper, K. & Swinton, P.A. (2023). The predictive validity of individualised load-velocity relationships for predicting 1RM: a systematic review and individual participant data meta-analysis. Sports Medicine, 53(9), 1693–1708. Veja estudo →
- González-Badillo, J.J. & Sánchez-Medina, L. (2010). Movement velocity as a measure of loading intensity in resistance training. International Journal of Sports Medicine, 31(5), 347–352. Veja no PubMed →
- Marston, K.J. et al. (2022). Load-velocity relationships and predicted maximal strength: a systematic review of the validity and reliability of current methods. PLOS ONE, 17(10), e0267937. Veja estudo →
- Ramos, A.G. (2024). Resistance training intensity prescription based on load-velocity relationship. International Journal of Sports Medicine, 45, 257–266. Veja estudo →



